Eu sei

E estou aqui
dando o coração
numa tigelinha roxa fluorescente
acompanhada de uma bola de sorvete de menta
com chocolate
a outra de pistache

Você não aceitou nenhuma das duas

Exatamente cinco quarteirões

Do início do seu antebraço
ao pulso
a distância de uma tatuagem
da sua nuca
ao meio das costas
um palmo e meio
da minha casa a sua
a ridícula distância
de cinco quarteirões

Entre eu e você
um poema e alguns milímetros
a falta de vontade

A essa altura, meu bem
Qualquer distância é um abismo

por medo do futuro
repouso a cabeça
em uma parede

Novamente

Talvez seja minha sina
nasci pra Penélope
nunca vou ser sereia
ou Helena
a mover mares com meu canto

A espera de um Ulisses de mil faces
me vejo presa entre linhas
até o pescoço

Reflexão sobre amor

Nu! Amor é complexo né.
Deixa eu te dizer algo sobre amor. Amor, é uma coisa linda.
Eu gosto do que o Osho diz lá sobre amor ser na verdade um estado de espírito. O amor enquanto estado de espírito presume uma aceitação que volta o olhar pra dentro. Ou seja, amor próprio. Ser amor. Afinal de qual espírito é o estado? Haushas’ Do seu né…
E aí teoricamente essa energia parte de você e chega equânime para quem quer que seja que você tenha contato. Afinal, pode ser o tio da padaria, uma pedra ou seu chefe bundão, o amor do seu estado de espírito é um estímulo que não depende do outro. MAS pode ser alterado por eventos e pessoas né.
Essa, na minha experiência e perspectiva, é a única forma de amor de fato incondicional. Que é o ser amor. Um amor que começa e termina nele mesmo. Que é criado por você para você.
E pra mim o que faz dele incondicional é o fato de não ter expectativa no processo. E me permita aqui refletir mais um pouco sobre o que eu considero então amor condicional (que seria no caso todos os outros).
Para isso venha comigo nessa batuteira aventura por Obras de Amor, de Kierkegaard. Lá ele fala de dois amores, um pagão e um cristão. O pagão seria um amor assimétrico, pois um indivíduo imperfeito ama alguém que é mais perfeito que ele – mais belo, mais sábio, mais talentoso, mais puro, etc (Já sabemos que isso é treta e não dá certo colocar o outro acima, seja como autoridade ou ídolo de alguma forma). O amor “cristão”, ao contrário, seria mais simétrico porque se baseia em algo que é comum entre as pessoas. Afinal, todos somos imperfeitos e pecadores, perfeito só deus né.

O paradoxo é que o único fator comum realmente a todos seria a morte. Neste sentido, amar implica enxergar a pessoa amada como se ela estivesse morta (ou que vá morrer). KKKK É exatamente esse fator comum que a torna especial. Exemplo do Kierkegaard: a lenda de Don Juan. Ele amava todas as mulheres, não importa se eram belas, feias, jovens ou velhas. Ou seja, Don Juan amava uma mulher morta (já que era o único fator que unia todas elas: passíveis de morte! KK). Por isso sempre dava errado.

MAS! Cada erro era único.
Absorva essa frase. Deixa ela entrar no seu coração. HSuayhsuahs’
O interessante nesse paradoxo é que o amor já começa a partir de um erro. Embora a morte seja comum a todos nós, ela é uma singularidade que não nos pertence. É como contemplar uma música desafinada sem compreender como ela pode ser tão bonita quanto errada. Ou uma ilustração linda sem proporções corretas. Ou improvisação no jazz. Ficamos diante de um erro irreparável, como a morte.
Somos fascinados pelo erro (acidental ou proposital), tentamos enxergar uma beleza secreta por trás daquilo que (supostamente) não foi pensado. Claro que não é qualquer erro, precisa ser um erro único, singular, não passível de ser reproduzido. O amor que sentimos por alguém não foi planejado, não foi imposto e contradiz a si mesmo em muitos sentidos. O amor é um erro único.
Mas toda essa volta pra falar o que? Quando eu amo alguém pelo menos, eu começo a reparar o por que do amar. Quais são as coisas que me fazem amar aquela pessoa. E isso revela muito sobre quem eu sou. Se a pessoa faz um ovo frito incrível, e descubro que eu amo isso na pessoa, ao mesmo tempo eu descubro que eu amo ser servido um ovo frito incrível (que é descobrir algo sobre “minha essência”, e desculpe o exemplo mundano). E quando isso acontece, muitas vezes inconscientemente, crio um paradigma do que e do por que eu amo a tal pessoa. E quando esse paradigma é quebrado, vamos supor que a pessoa deixa de fazer ovos fritos para mim, eu me sinto traído, ou revoltado, ou triste, enfim.
O que aconteceu de fato foi uma quebra de expectativa. Esperava ovo frito, não tive ovo frito, e fiquei triste. :c
E veja, expectativa é perfeitamente normal, e é por isso que eu acho que amar o outro é naturalmente condicional. Condicionado a o que esperamos do outro. E isso pode ser flexível ou não.
Vamos supor que eu seja flexível quanto ao ovo frito. Mas, supondo que essa pessoa seja uma namorada, ela dormiu com outro. E nessa expectativa de não trair não sou flexível. E terminamos por isso.
O exemplo de relacionamento deixa isso claro. Mas vamos supor que seja o amor de mãe. Mesmo assim as expectativas podem quebrar tanto que mães não amem mais filhos, ou que pelo menos seja muito difícil. Tenho caso na minha família onde um primo se tornou dependente de drogas e a mãe dele vive triste e pesarosa com isso. Ao meu ver é uma expectativa de que ele não se tornasse viciado se quebrando para a mãe.
E ainda trago um terceiro exemplo, onde isso se encaixa no amor próprio, sendo um amor não como um estado de espírito (incondicional) mas sim um amor a imagem que tu tem de si mesmo. Eu quero ser um puta cenarista de animação, um ilustrador foda. E eu tenho essa expectativa em cima de mim, criada por mim. E quando desenho algo tosco, ou enfrento barreiras pra atingir esse objetivo, eu crio raiva, e rancor, e tristeza. Por que quebrei uma expectativa do que gostaria de ser, mas que é diferente de quem sou.
Pausa para um gole de chá.
Agora observe como Kierkegaard teve um ponto. E como isso conversa com o que falei no início:
Se estamos sempre amando condicionalmente, projetando imagens no outro e em si, qual seria o caminho para não nos frustrarmos com as quebras de expectativas?
Ao meu ver é assumindo que o outro e tu morre.
Isso metaforicamente agora. É ver que no outro dia a pessoa não é mais a mesma. E que a pessoa do ontem morreu. E deixará que a pessoa do hoje se vá para que a do amanhã exista. É muito injusto esperar que as pessoas não mudem (não morram), assim como é injusto esperar que você não mude (injusto consigo mesma).
Então apenas observe, como fala o Mooji. Por que eventualmente as expectativas serão quebradas mesmo, vai dar errado. Mas, lembre-se que o amor é um erro único, não foi planejado, não foi imposto e contradiz a si mesmo em muitos sentidos. Mas cada erro único vale a pena.

 

Por: Lua
Como podem ver, esse texto não é meu.
um grande amigo me mandou e eu achei que valia compartilhar por aqui por que mesmo com a minha baixíssima audiência. Boa noite, Samuca, tudo bem? Me ajudou e acho que vale deixar isso num lugar pra ser lido.
Ele deixou compartilhar, mas pediu que não o identificasse.

Contraste

Gosto de como você se espalha,
De como olha de trás dos óculos 
E desse sorriso sempre meio pronto,
A postos
Pra colorir teu rosto.

Gosto da dificuldade
Em te manter vestido,
Das tuas pintas
Todas
E do formato amendoado 
Da tua boca.
Eu gosto é de te ver
Fraco e molhado
Entre as minhas pernas.

Gosto quando você diz que gosta
E dessa linha fina
Que vai da tua nuca
Até o cóx

Você diz que não entende poesia
Mas é em noites quentes como essa, meu bem
Que nascem os poemas

E foi um bom dia*

Ainda não era dia

Quando abri os olhos

“Acho que te amo”

Você tinha tanta certeza

Eu fui sincera nessa manhã

E em todas as outras

Sei que você também foi

Em quase todas

Bom dia, oque vamos fazer hoje?

Você amanhece a qualquer

hora do dia

E eu perdi a conta

De quantas vezes

Li pra você

Esse poema de bom dia

Você entardecíamos

E nos e mordíamos

De felicidade e desejo

Pra amanhecer de novo, juntos

E você me mostrou

Sua cidade

Seu motivo

Pra ser você

E eu realmente achei

Que podia fazer parte

Boa noite, meu amor

Vai ser sol d’outra vida

E lhe beijar

Um bom dia.

Leão

Você me tem na ponta da

Língua

Na ponta

Dos dedos

E poesia, meu bem

É você me beijando

Dentro de mim

Primeira viagem, segundo encontro.

Eu te senti,

Escorrer, transbordar de mim

Até a ponta dos dedos,

Da língua,

escorrer no canto da boca.

Me pergunta

Por que eu não falo

E eu rezo, pra que você entenda,

Esse idioma de gestos

Que só sabe expressar amor e desejos.

_ Às vezes, meu amor, quando calo

É para fazer poesia.

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