II Pertencimento

Minha avó viajou pra praia, passou 20 dias fora e a casa ficou aos cuidados da minha tia.
Esse tempo me fez perceber que uma casa toma a forma da “matriarca” que a habita (deixemos aqui matriarca como um posto que independe do gênero) e como citado, minha família gira, de fato, em torno da matriarca.
Talvez por isso, esse tempo todo que ela esteve fora eu fiquei com o sentimento de que algo estava fora do lugar. As coisas não estavam funcionando e a casa parecia sem vida.
Recebi a notícia de que ela havia chegado, estava na rua, e nesse momento eu percebi o tanto que estava com saudades dela, doeu. Rapidinho dei um jeito de ir pra casa vê-la. Conversamos um pouquinho, porque ambas estávamos cansadas, e logo pegamos no sono (mas a velhinha não é fácil, reclamou um tanto por conta da casa).
Ontem trabalhei, então só hoje tivemos tempo de conversar direito.
Mas ontem mesmo eu já percebi uma das coisas que mais me fez falta: o barulho da casa.
Quem já dormiu aqui sabe, vovó acorda cedo e faz questão de deixar isso claro.
Levanta pra fazer café, mexe nos armários e liga o rádio.
E por mais que eu reclame de ser acordada cedo, deuses, como senti falta disso. Mais do que o próprio café, senti falta de me arrumar pra sair ouvindo ela no andar de baixo mexendo nas panelas e armários.
O verdadeiro som da minha casa.
Hoje desci, tomei café e fui fazer os doces pro aniversário da minha prima, que seria um almoço na minha casa.
Enquanto fazia os doces (a única coisa que minha avó assume sem pestanejar que eu faço melhor) ficamos conversando sobre um CD do Andrea Bocelli, uma coletânea de trilhas sonoras de filmes interpretadas por ele e que é um dos maiores tesouros da minha avó.
Passamos a manhã sozinhas, arrumando a festa e conversando sobre ópera.
Esse é um desses momentos que me faz agradecer aos Deuses por ter vindo parar nessa casa.

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