MUSK

Seu perfume é comum

Barato até, corriqueiro 

Mas no tom da sua pele,

Misturado no seu cheiro 

Ficava quase doce

Quase tão doce quanto a boca

Grande
Hoje passaram por mim com o mesmo perfume

Tremi

Neblina

O alto da montanha contrastava com o abismo da estrada. A baixada, cheia de neblina como estava, me fez pensar num caldeirão, numa bruxa tramando feitiços. Meu coração vinha pesado como aquelas nuvens e não se via um metro a frente.

“Eu consigo ver muito bem!”

A vozinha doce e infantil no banco de trás, parecia querer se afirmar e antes, tranquilizar os adultos tensos que tateavam as curvas da estrada para Ouro Preto.

“Sabia Nuno, quando tem nevoa é que as bruxas aparecem.”
“Tudo bem papai, assim como as pessoas, as bruxas podem ser boas.”

Essa sabedoria infantil sempre me comove e surpreende. A gente cresce e esquece de ver as coisas. Esquece desse saber simples, do óbvio e até objetivo. A doçura e a dureza da ingenuidade.

O que diria aquela criança se soubesse do peso que eu trazia no peito?
Riria, com certeza riria.

“Os problemas dos adultos são tão bobos.”

Tambor

Batia forte

e chovia

dentro da sala

a voz que preenchia

a minha cala

 

[escute o som]

Da cachoeira

da roda

da gira

dos pés que batem no chão

de madeira

 

Batida ancestral

E passarinho

anunciaram

a reconexão

 

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Vovó Marta e Vovó Luzia III

[Renascença I]

Hoje, meu tio do meio passou em casa:

“Vamos na Marta e na Luzia?”

Eu e minha avó estávamos apesar de desanimadas cedemos, eram só alguns minutos de um domingo.

Vovó Marta e vovó Luzia -como eu costumo chamar- são duas senhoras, passando dos 80 anos, amigas da minha avó de longa data e por quem toda a família, s quatro filos e todos os netos da minha avó tem muito carinho.

Vovó Luzia, uma senhorinha miúda, tão magra e curvada que os ossos saltam as costas, parecem asas querendo se abrir. Muito branca e a face muito rosada, típica da descendência italiana, veio de boa família, e de forma que só era permitida as que tinha algum poder aquisitivo na época, pode estudar e trabalhar fora. Pelas histórias que escuto, tenho para mim, que deve ter sido uma mulher muito bonita, mas frágil, dessas que parecem poder se partir com o vento. Ao menos, essa é a sensação que ela me passa hoje. Vovó Luzia era casada com Walter, de quem me lembro pouco mas escuto falar um tanto. Vovó Marta, Negra, baixinha, de ossos e tronco largo, cabelos crespos e hoje, completamente grisalhos. Mesmo que hoje, pareça tão “quebradiça” quanto vovó Luzia, ela me dá a sensação de ter sido uma mulher robusta e forte. Não sei bem em que circunstância, nem nunca me importei em saber, vovó Marta foi viver com vovó Luzia como empregada a realmente muito tempo atrás, não sei quanto e nem se elas mesmas ainda sabem.

Depois que Walter morreu, vovó Luzia e vovó Marta passaram a viver sozinhas -as duas- uma cuidando da outra e cultivando sua própria solidão.

A casa cheira a saudade, poeira e guardado.

As janelas sempre fechadas que, apesar do sol alto lá fora, deixam a casa escura e abafada. Tudo parece estar no mesmo lugar a mais de cem anos e, talvez esteja. Da sala de visitas, a casa não parece habitada.

Talvez não seja.

É na cozinha que se percebem os poucos sinais de vida, uma garrafa de café sobre a mesa, alguns copos lavados secando sobre um pano de prato.

Vovó marta hoje estava de bom humor, raridade. Assim que entrei, apertou os olhos como quem tenta me enxergar melhor, me olhou de cima abaixo:

“”Cê” é filho de bananeira, menina?””

E riu um tanto da própria piada, vovó Luzia completou:

“Mas minha nossa senhora, Aparecida. Só crescem os seus meninos.”

Vovó Marta perguntou se eu estava namorando.

” Vai ficar pra titia.”

Sorri e concordei.

Ali, naquela casa, as coisas têm uma dimensão diferente.

Coisas pequenas parecem enormes e coisas enormes parecem pequenas. A percepção de tempo, espaço, problemas e perigos se alteram naquela casinha de esquina da rua Jacuí.

As duas passaram a manhã a brincar, que cortariam um pedaço das minhas pernas, queriam que fosse menor. Eu sorria e dizia, passaria a altura a elas, pra que pudessem me abraçar melhor.

Elas se preocupam tanto, que por vezes se paralisam.

Se preocupam com o que fazer com seu dinheirinho guardado e pra quem deixa-lo, com a própria saúde, com o que fazer pro almoço, que roupa vestir, a cor das cortinas, tudo parece um obstáculo intransponível pra quem já está casado.

E eu, nova, mas admito, já um tanto casada, sempre saio de lá com o coração meio pesado, de ver pessoas que amo nesse estado.

Mas nada se compara ao que sente minha avó.

Eu já as conheci assim, senhoras, cansadas, temperamentais e meio ranzinzas. Vovó não, ela as conheceu a mais de 35 anos atrás, quando ainda eram bonitas e robustas, quando elas deram a minha avó suporte e carinho.

Sempre que vou lá, com os olhos cheios d’água, se lembram do meu pai, de algum gesto ou presente que ele deu a elas.

Minha avó sempre volta meio trêmula, meio abalada, com o quadro de nossas amigas que, preocupadas, esperam a morte no sofá da sala.

Lobo

A fera arranha o peito

rasga, estraçalha

minha dor

ela espalha

ao mundo

num grito surdo

 

Dor

Dói

Calada

ignorada.

 

 

Até quando?

Culpada!

Pelo que não fiz

pelo que não quis

fui vítima

vitimizada

 

_ Você se vitimiza demais.

_ Você tem que correr atrás.

 

Lutar!

Luto!

Luto.

Pelo seu herói,

que também é meu carrasco

você lhe da um altar,

e eu, meu asco.

 

Meu demônio tem forma de lobo,

é também o obreiro

e o bobo.

 

Você não vê,

você não viu.

eu não soube dizer,

você não sabe crer.

Não.

Não ouviu,

omitiu,

mentiu,

gritou tua dor ao mundo

foi ao fundo

do poço

defender o moço

que me agrediu.

Quem paga sou eu,

ror um crime que não cometi.

também me omiti,

pra ver você sorrir.

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