Sutil

O jeito pequeno, rápido
De falar
gesticular
das mãos que se aproximam do corpo
e os olhos grandes, por trás das lentes
me aproximam, os olhos
com as mãos sobre as minhas pernas
contam casos
me desconcertam.

É que nossos tempos
São diferentes
Divergem
Mas se encontram aqui, nesse chão frio
E na ponta dos dedos

pequeno, sutil e familiar

As marcas do meu corpo,
Tem o desenho da sua mordida
Sua coxa cabe dentro da minha
mão
meço as distâncias do seu corpo
no tato
e aqui embaixo, entre as minhas unhas
você ficou tão bonito
e aqui debaixo, entre as minhas unhas
é você quem parece pequeno.

Relógio

Não consigo saber
Quanto sei
Quanto mostra de ti
Nesse tanto de pergunta
Nessa mescla de doce, de medo
e desejo

Nosso problema é o tempo

Tempo,
que mata as borboletas no estômago
que se devoram
me devoram
Sanguinárias.

Cofre

É uma lata de metal
com um risco
Um buraco vertical
no intuito de guardar moedas
Hoje, seu cofre guarda ossos.

O que sobrou de você
Agora mora
Nessa lata
Pesada
Escondida no fundo
Do guarda-roupas dela.

Esse pouco precioso
que ficou
Foi guardado pra quando
ele fizer idade
O que sobrou da sua soberba
daquela vaidade
ácida
falsa

Sobrou tão pouco de ti

A casa ainda está aqui,
a memória ainda está aqui
Escondida em cada fresta
na escolha de cada piso
e janela
e azulejo
Daquele banheiro.

Mas, no fim das contas
oque sobrou de ti
foi aquela lata.

Fio

Inconstância
inconsistência
Busco na sua ausência
motivo

Pra saciar ansiedade
Sanar demência
Imagino linhas paralelas
Significo irrelevâncias

 

Nos seus espaços
vazios
ando sobre fios
de alta tensão

Bacia

A carne amacia
o som dos ossos
rangendo
remoendo
as dores 
e os horrores de 

 estar vivo 

pseudo poemas ii ilustrações -4

“Eu não devia te dizer”

 

Meia lua
Três cervejas e a grama.
Se me apaixonar fosse possível
Dividiria contigo essa ressaca

a física e a moral
Depois do
que fizemos
Sob essa mesma lua
nessa  mesma grama

Marquei teu pescoço sem querer
E você me marcou

a palavra

Saudade

“E eu não devia te dizer
mas essa lua
mas essa cerveja
botam a gente comovido como o diabo.”

Akai ito II

As moiras teceram tudo direitinho

Me fizeram bastarda
e nascida em Juno
Que era pra ela
me perseguir

A Roda da fortuna
corre, não gira
Solta
eu me equilibro sobre o vão

Abro as asas
voo baixo
Sorrateira
abro o leque
do pavão
que guarda os olhos
que vigiaram minha mãe

Se alguma linha nos uniu
Cortaram no nascimento
com alicate de unha
porque sangue, meu bem
é liquido
e não forma laçoprojeto I-3

A primeira vez

Um copo depois do outro, bebia. Um clichê, bebia tentando ganhar coragem.

E falava.

Enquanto conscientemente se embriagava, falava.
Explicava com ares de professora, a vida, o mundo e a arte. Achava que a maior idade lhe protegeria.

Sua pequena plateia, constituída por uma única pessoa, ouvia e perguntava, puxava sua língua. Os olhos brilhantes, pacientes e atentos. Algo se esgueirava por baixo daquele brilho. E ela falava desconcertada, prepotente.

As palavras escorriam e discorriam sobre assuntos de seu domínio e a plateia, paciente, escutava, perguntava .
A fala desenfreada tentava desesperadamente mascarar o desejo.

Copo atrás de copo, a mente não tardou a ficar vazia, ou melhor, cheia.
Cheia do brilho daqueles olhos e da vontade de descobrir oque se esgueirava por baixo deles. Os pensamentos ficavam cada vez mais confusos e ela tomou mais um copo, tentando afastar a sensação. As palavras começaram a faltar, seus próprios olhos lhe traiam e davam nota de sua verdadeira intenção.

Aos poucos, por baixo dos óculos quadrados, aquele olhar mudava.

Silêncio.

Um silêncio que camuflava palavras que os olhares trocavam.
Um olhar que aos poucos, transmutava interesse em malícia.

A piada foi infame e absurdamente desconcertante.
Ela sentia que deveria ter sido ela a dar a deixa, o primeiro passo. Agora ela estava vulnerável, exposta. Caíra  na armadilha daqueles olhos grandes, mas nada tinha de inocente.

Ficou vermelha, a face ascendia um fogo quase tão intenso quanto o que trazia dentro do peito e rasgava a vontade. Vermelha de embriaguez, desconcerto, ela riu. Riu da própria desgraça. Fora pega em seu desejo, com a boca salivando encontrar a botija.

Ávida, se entregava feito cordeiro.
Agora percebia, no novo brilho que aquele olhar assumiu, nunca esteve no controle, nunca fora ela quem seduzia. Era um coelho preso em ardilosa armadilha.

Dos lábios pintados, lhe sorriam dentes que não demoraram a encontrar a carne macia e intocada do seu pescoço. As unhas amarelas lhe cortavam as costas e ela gemia de gozo e medo.
Confusa, ela se perguntava:
“Não era eu o lobo?”
Ela era a primeira, e sabia.

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