Castelo

 

No dia que houver paz

As paredes dessa casa vão ruir
Cada janela, cada cômodo, cada móvel
Vai virar pó sob o peso da liberdade
De não poder escorar
A culpa da própria infelicidade
Nessas paredes encharcadas
Vivo pra assistir a derrocada
Dessa casa
Mas na contramão
Me perco nos corredores infindáveis
Desse castelo de ruínas
A dor é leve aqui
E está tudo ao contrário
Pros regentes desse castelo,
Confortável é o medo
Para os regentes desse castelo
Confortável é a dor
Rivotril não faz passar a vontade de chorar
Choro até dormir
Ironicamente, a janela do meu quarto,
virada pra rua, me faz pensar numa torre
Acordo com olhos úmidos
Tem dragões no quintal

Bolorento

Essa casa é de um úmido pesado

Que mofa tudo
A mangueira do bebedouro da geladeira
O botão que aperta pra sair água
Os armários do banheiro
As caixas no chão do ateliê
As pessoas
De tudo crescem fungos
dos quais tiro o chapéu, na tentativa de mascarar a sujeira

Receita ritual

Ao pronunciar as três curtas
E enfáticas
Palavras,
Tem de se tomar muito cuidado.
Primeiro, deve-se repeti-las
Muitas vezes
Mentalmente.
Olhar nos olhos,
Pensar nelas com toda sua força
E esperar que o outro,
Seja capaz de entendê-las
Só sob a forma desse olhar.
Pode-se também, escreve-las
Em segredo
Depois de muito imaginá-las
Verdes, azuis
E coloridas
Pode-se dizer
Baixinho
Como um segredo
Como se nunca houvesse sido pronunciado antes
Quase como se doesse
Como se conjurasse um feitiço.
É como plantar uma semente
Que, ao ouvir em troca, palavras semelhantes
Começa a brotar
Depois disso,
A força
Velocidade
E comprimento
São diretamente proporcionais
Aos cuidados e as maneiras
Que continua-se a recitar o feitiço.
É comum que a repetição a faça crescer.
Com o tempo, vai-se ganhando forma
Encorpando
Vai-se falando mais alto
Escrevendo maior
Ganhando mundo
O feitiço, vai querendo ganhar o mundo
Contar pra todos
Sua história
Vai se esgueirando nos bares,
Nas camas no fim da noite
Nós beijos de bom dia
Nós sorrisos cansados depois do trabalho
Ele vai sutilmente
Tomando as casas, as esquinas
As praças
Restaurantes
E salas de cinema
Se espalha por todas as praias
E volta
Por que quem o conjurou
O chama
Pra gritar
Seu pequeno feitiço
Aos quatro ventos
Eu te amo

Manual da solidão

 

Sabe, no abraço de um homem
Tem espaço suficiente
Pra chorar sem ser vista

A posição que chamam de concha
Já trás no nome a solução
A casca, permanece rija
Dobrada sobre a parte mole
Que por ser mole
Chora

De costas, no escuro
Se ele perceber-lhe no tato as secreções do choro
Trate de dizer que
É saliva, sangue, suor ou gozo
Cascas não lidam bem com lágrimas

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