Vovó Marta e Vovó Luzia III

[Renascença I]

Hoje, meu tio do meio passou em casa:

“Vamos na Marta e na Luzia?”

Eu e minha avó estávamos apesar de desanimadas cedemos, eram só alguns minutos de um domingo.

Vovó Marta e vovó Luzia -como eu costumo chamar- são duas senhoras, passando dos 80 anos, amigas da minha avó de longa data e por quem toda a família, s quatro filos e todos os netos da minha avó tem muito carinho.

Vovó Luzia, uma senhorinha miúda, tão magra e curvada que os ossos saltam as costas, parecem asas querendo se abrir. Muito branca e a face muito rosada, típica da descendência italiana, veio de boa família, e de forma que só era permitida as que tinha algum poder aquisitivo na época, pode estudar e trabalhar fora. Pelas histórias que escuto, tenho para mim, que deve ter sido uma mulher muito bonita, mas frágil, dessas que parecem poder se partir com o vento. Ao menos, essa é a sensação que ela me passa hoje. Vovó Luzia era casada com Walter, de quem me lembro pouco mas escuto falar um tanto. Vovó Marta, Negra, baixinha, de ossos e tronco largo, cabelos crespos e hoje, completamente grisalhos. Mesmo que hoje, pareça tão “quebradiça” quanto vovó Luzia, ela me dá a sensação de ter sido uma mulher robusta e forte. Não sei bem em que circunstância, nem nunca me importei em saber, vovó Marta foi viver com vovó Luzia como empregada a realmente muito tempo atrás, não sei quanto e nem se elas mesmas ainda sabem.

Depois que Walter morreu, vovó Luzia e vovó Marta passaram a viver sozinhas -as duas- uma cuidando da outra e cultivando sua própria solidão.

A casa cheira a saudade, poeira e guardado.

As janelas sempre fechadas que, apesar do sol alto lá fora, deixam a casa escura e abafada. Tudo parece estar no mesmo lugar a mais de cem anos e, talvez esteja. Da sala de visitas, a casa não parece habitada.

Talvez não seja.

É na cozinha que se percebem os poucos sinais de vida, uma garrafa de café sobre a mesa, alguns copos lavados secando sobre um pano de prato.

Vovó marta hoje estava de bom humor, raridade. Assim que entrei, apertou os olhos como quem tenta me enxergar melhor, me olhou de cima abaixo:

“”Cê” é filho de bananeira, menina?””

E riu um tanto da própria piada, vovó Luzia completou:

“Mas minha nossa senhora, Aparecida. Só crescem os seus meninos.”

Vovó Marta perguntou se eu estava namorando.

” Vai ficar pra titia.”

Sorri e concordei.

Ali, naquela casa, as coisas têm uma dimensão diferente.

Coisas pequenas parecem enormes e coisas enormes parecem pequenas. A percepção de tempo, espaço, problemas e perigos se alteram naquela casinha de esquina da rua Jacuí.

As duas passaram a manhã a brincar, que cortariam um pedaço das minhas pernas, queriam que fosse menor. Eu sorria e dizia, passaria a altura a elas, pra que pudessem me abraçar melhor.

Elas se preocupam tanto, que por vezes se paralisam.

Se preocupam com o que fazer com seu dinheirinho guardado e pra quem deixa-lo, com a própria saúde, com o que fazer pro almoço, que roupa vestir, a cor das cortinas, tudo parece um obstáculo intransponível pra quem já está casado.

E eu, nova, mas admito, já um tanto casada, sempre saio de lá com o coração meio pesado, de ver pessoas que amo nesse estado.

Mas nada se compara ao que sente minha avó.

Eu já as conheci assim, senhoras, cansadas, temperamentais e meio ranzinzas. Vovó não, ela as conheceu a mais de 35 anos atrás, quando ainda eram bonitas e robustas, quando elas deram a minha avó suporte e carinho.

Sempre que vou lá, com os olhos cheios d’água, se lembram do meu pai, de algum gesto ou presente que ele deu a elas.

Minha avó sempre volta meio trêmula, meio abalada, com o quadro de nossas amigas que, preocupadas, esperam a morte no sofá da sala.

Minhas avós nunca me ensinaram a costurar

minhas avós são costureiras de profissão, as duas, a de mãe e a de pai. Mas elas, porém, nunca me ensinaram sequer, a passar a linha na agulha.

A mais doce, com quem morei ainda criança, carinhosa dizia “costurar pra quê minha filha? O que quiser eu faço e você não precisa.” a outra, um tanto mais desiludida da vida, dizia “não ensino, mas nem morta. Sina de costureira é acabar pobre, cega, corcunda, com um lado da bunda maior que o outro e ainda por cima, torta.”

Não sabiam coitadinhas, que desse destino eu não escaparia. Criança esperta que era, as observava todos os dias.

Por fim, dei pra ser artista.

Caneta de agulha, pauta de linha, costuro versos, remendo poesia.

Bar do Nonô

Existe um bar, na Amazonas, pouco depois da Raul Soares, que sempre está aberto.
Possivelmente um tanto famoso, exatamente por isso e pelo caldo de mocotó, que parece ser o carro chefe do lugar(além claro, de cerveja barata).
Embora nunca tenha entrado, sempre tive uma relação afetiva com ele.
Passei nessa rua em muitos momentos da minha vida, alguns deles muito importantes, como por exemplo o vestibular. A maioria das vezes de ônibus. Acho que essa relação se dá, pela constância dele. Nessa maluquice do centro, esse pequeno estabelecimento sobreviver, pra mim, parece mágico.
Sempre o observo da janela e me provoca uma engraçada sensação de nostalgia. Me lembra dos bares que meu avô frequentava quando eu era criança.
Bares onde os velhinhos vão jogar cartas, sinuca, beber uma cachacinha e jogar conversa fora. Sempre simpatizei por esses bares. Sempre me pergunto quem eram essas pessoas que hoje, bebem e jogam cartas a esmo, num copo sujo do centro. Quem são esses senhores de boina, quem são suas famílias, como viveram e o que fizeram. Onde estarão seus netos?
Esses lugares a margem, sempre me deixam curiosa…

Agachar

I

Todas as noites, vejo um copo com líquido preto num cantinho da pia da cozinha. Sempre no mesmo lugar, em baixo do micro-ondas, na frente da tomada.
Sempre pego o copo e levo até a altura do rosto pra sentir o cheiro e comprovar o óbvio, é café. Mesmo sabendo que é o resto do café passado à tarde, sempre espero outra coisa. Um chá? Uma Coca-cola sem gás talvez?
Mas é sempre café.

Il

Esse café passado à tarde, geralmente por voltas das quatro, me lembra meu pai. Ele sempre cobrava da vovó, pontualmente às dezesseis horas, que passasse novamente o café.

Ele bebia muito café.
Se abaixava no quintal, xícara na mão, cigarro na outra, Hollywood. Se sentava de um jeito peculiar, sobre os calcanhares, sem que esses tocassem o chão, as pernas abertas e joelhos levemente direcionados a frente.

III

Esse jeito peculiar lhe dava uma aparência meio selvagem.

Dizem que puxei isso dele, esse mesmo jeito de se abaixar. Dizem que puxei também o jeito de falar, carregado de elogios e também, o jeito de gesticular, sacudindo as mãos enquanto fala. Acho que também caminho parecido com ele, quando não estou de cabeça baixa.

IV

Meu pai sempre repetia uma frase. Claramente não era dele porém, repetia tanto, que poderia pedir uso capião dela.
“A definição de insanidade é fazer sempre a mesma coisa, esperando resultados diferentes.”
Talvez seja por isso que sempre cheiro o copo.

O pouquinho a mais de água no bule que todas as tardes está alí, como um objeto, uma joia de família, passada de geração a geração.

Café frio tem um cheiro meio azedo.

I A Lasanha

Para quem não sabe, Armanelli é um sobrenome italiano, e como boa família italiana e matriarcal* nós temos a tradição do famoso almoço de domingo associada a minha tradição favorita: A lasanha.
Quando eu tinha uns 12-13 anos, minha avó me pediu ajuda pela primeira vez para fazer a famigerada lasanha e foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.
O segundo melhor momento foi quando ela me pediu para fazer e nesse dia, depois dos elogios dos familiares presentes, ela teve que engolir -calada- que meu molho era melhor que o dela.
O fato dela confiar em mim, a tão importante missão de fazer a lasanha inteira foi demais para o meu coraçãozinho juvenil.
Mal sabia que isso seria o início de uma guerra.
Minha avó nunca me ensinou a cozinhar, ao contrário do que se espera de uma vovó, a minha é pouco paciente. O que aprendi de cozinha, aprendi pedindo ajuda a outras pessoas e rezando ao santo Google. Consequência disso, nossas maneiras de cozinhar divergem bastante e minha avó parece fisiologicamente incapaz de confiar a panela a mim, mesmo quando ela me pede para fazer algo. E isso, já foi motivo de batalhas épicas, armadas com colheres de pau e palavras ácidas.
Hoje, bom domingo em família, fizemos uma lasanha e enquanto ela está no forno, escrevo esse texto, aproveitando o benefício do ócio de domingo.
Minha avó me pediu pra fazer o molho branco – o nosso maior embate culinário.
apesar de ter solicitado minha ajuda, fica andando atrás de mim, dizendo que meu método está errado embora tenha feito isso várias vezes e o resultado é sempre o mesmo.
Hoje, quem resolveu o impasse foi minha tia.
Minha avó provou o molho ainda no início e disse que estava sem sal, muito ralo, e toda sorte de defeitos, respondi a alfinetada e continuei a fazê-lo. Quando pronto dei pra minha tia experimentar.
_Nossa, ficou PER-FEI-TO.
(Ponto para Val -que como péssima ganhadora, ri na cara dela.)
Quem já conheceu a dona Aparecida, sabe quem ela é uma péssima perdedora, e saiu resmungando e batendo as panelas, permaneceu rabugenta durante todo processo de montagem da lasanha.

Se ela tivesse achado alguma das famosas tiradas dela para acabar com minha frágil e recém conquistada moral, eu não estaria redigindo esse texto.
Porém, estou aqui para marcar um fato histórico.

Val 1x vovó 0

Mas não se enganem meus amores, o dia está só começando, ainda nem passamos do almoço.

II Pertencimento

Minha avó viajou pra praia, passou 20 dias fora e a casa ficou aos cuidados da minha tia.
Esse tempo me fez perceber que uma casa toma a forma da “matriarca” que a habita (deixemos aqui matriarca como um posto que independe do gênero) e como citado, minha família gira, de fato, em torno da matriarca.
Talvez por isso, esse tempo todo que ela esteve fora eu fiquei com o sentimento de que algo estava fora do lugar. As coisas não estavam funcionando e a casa parecia sem vida.
Recebi a notícia de que ela havia chegado, estava na rua, e nesse momento eu percebi o tanto que estava com saudades dela, doeu. Rapidinho dei um jeito de ir pra casa vê-la. Conversamos um pouquinho, porque ambas estávamos cansadas, e logo pegamos no sono (mas a velhinha não é fácil, reclamou um tanto por conta da casa).
Ontem trabalhei, então só hoje tivemos tempo de conversar direito.
Mas ontem mesmo eu já percebi uma das coisas que mais me fez falta: o barulho da casa.
Quem já dormiu aqui sabe, vovó acorda cedo e faz questão de deixar isso claro.
Levanta pra fazer café, mexe nos armários e liga o rádio.
E por mais que eu reclame de ser acordada cedo, deuses, como senti falta disso. Mais do que o próprio café, senti falta de me arrumar pra sair ouvindo ela no andar de baixo mexendo nas panelas e armários.
O verdadeiro som da minha casa.
Hoje desci, tomei café e fui fazer os doces pro aniversário da minha prima, que seria um almoço na minha casa.
Enquanto fazia os doces (a única coisa que minha avó assume sem pestanejar que eu faço melhor) ficamos conversando sobre um CD do Andrea Bocelli, uma coletânea de trilhas sonoras de filmes interpretadas por ele e que é um dos maiores tesouros da minha avó.
Passamos a manhã sozinhas, arrumando a festa e conversando sobre ópera.
Esse é um desses momentos que me faz agradecer aos Deuses por ter vindo parar nessa casa.

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