Faísca

Tudo que me lembro, é da taça de vinho, ela deitada no teu colo e uma paisagem surreal e estrangeira atrás. No seu texto, ela te pedia que enchesse mais uma taça, aqui, no bar, você pediu uma Coca. A imagem que suas palavras desenhavam na minha mente não pertenciam ao Brasil. Alguma planície da Itália talvez? a localização pouco importa, o próprio texto pouco importa. Por alguns segundos, imaginei quem seria a moça, essa que pede mais vinho. A pintei pequena, sardenta, com cabelos curtos, cacheados e escuros, muito escuros. Mas ela também, pouco me importa, bem como o caderno que eu folheio calma e enfaticamente. O caderno que você trouxe. Eu percebi seu incômodo e, enquanto te lia, você me observava inquieto.
Suas mãos, sempre nervosas, se embolavam, entrelaçavam os cabelos, uma na outra, corriam a mesa e logo, alcançaram o celular.
Fingi continuar lendo, sorrindo por dentro com a situação. Estava me deliciando com seu desconforto. É, talvez eu não seja tão fofa assim. Fingi não perceber também a foto que, intrometida, capturou meu riso divertido com a situação.
Continuei fingindo ler mais algum tempo, esticando ao máximo esse instante, que esboçava o início de alguma intimidade entre nós. Sei, para você foi uma eternidade, mas por mim, teria passado a noite ali, sorrindo sua  repentina timidez.
Você é muito transparente, intenso.
Você transborda, queima.
Talvez seja isso que me encanta, embora com certo receio, eu sempre admirei o fogo.

[A][M][O][R]

O amor,meus amores
é uma eterna
dança de entrega.
E eu, sou egoísta.

[ “Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.”]

Os opostos se atraem

Dois trens
à 200km/h
indo, em direções opostas
para o mesmo ponto

Alguns km do impacto
ambos os maquinistas
movidos pela intuição, falha
pressentem a aproximação

Ao mesmo tempo,
engatam ré
a meia marcha

ao se sentirem seguros
voltam pra linha
pra rota inicial
a toda velocidade

[ou a gente colide ou para]

A primeira vez

Um copo depois do outro, bebia. Um clichê, bebia tentando ganhar coragem.

E falava.

Enquanto conscientemente se embriagava, falava.
Explicava com ares de professora, a vida, o mundo e a arte. Achava que a maior idade lhe protegeria.

Sua pequena plateia, constituída por uma única pessoa, ouvia e perguntava, puxava sua língua. Os olhos brilhantes, pacientes e atentos. Algo se esgueirava por baixo daquele brilho. E ela falava desconcertada, prepotente.

As palavras escorriam e discorriam sobre assuntos de seu domínio e a plateia, paciente, escutava, perguntava .
A fala desenfreada tentava desesperadamente mascarar o desejo.

Copo atrás de copo, a mente não tardou a ficar vazia, ou melhor, cheia.
Cheia do brilho daqueles olhos e da vontade de descobrir oque se esgueirava por baixo deles. Os pensamentos ficavam cada vez mais confusos e ela tomou mais um copo, tentando afastar a sensação. As palavras começaram a faltar, seus próprios olhos lhe traiam e davam nota de sua verdadeira intenção.

Aos poucos, por baixo dos óculos quadrados, aquele olhar mudava.

Silêncio.

Um silêncio que camuflava palavras que os olhares trocavam.
Um olhar que aos poucos, transmutava interesse em malícia.

A piada foi infame e absurdamente desconcertante.
Ela sentia que deveria ter sido ela a dar a deixa, o primeiro passo. Agora ela estava vulnerável, exposta. Caíra  na armadilha daqueles olhos grandes, mas nada tinha de inocente.

Ficou vermelha, a face ascendia um fogo quase tão intenso quanto o que trazia dentro do peito e rasgava a vontade. Vermelha de embriaguez, desconcerto, ela riu. Riu da própria desgraça. Fora pega em seu desejo, com a boca salivando encontrar a botija.

Ávida, se entregava feito cordeiro.
Agora percebia, no novo brilho que aquele olhar assumiu, nunca esteve no controle, nunca fora ela quem seduzia. Era um coelho preso em ardilosa armadilha.

Dos lábios pintados, lhe sorriam dentes que não demoraram a encontrar a carne macia e intocada do seu pescoço. As unhas amarelas lhe cortavam as costas e ela gemia de gozo e medo.
Confusa, ela se perguntava:
“Não era eu o lobo?”
Ela era a primeira, e sabia.

Neblina

O alto da montanha contrastava com o abismo da estrada. A baixada, cheia de neblina como estava, me fez pensar num caldeirão, numa bruxa tramando feitiços. Meu coração vinha pesado como aquelas nuvens e não se via um metro a frente.

“Eu consigo ver muito bem!”

A vozinha doce e infantil no banco de trás, parecia querer se afirmar e antes, tranquilizar os adultos tensos que tateavam as curvas da estrada para Ouro Preto.

“Sabia Nuno, quando tem nevoa é que as bruxas aparecem.”
“Tudo bem papai, assim como as pessoas, as bruxas podem ser boas.”

Essa sabedoria infantil sempre me comove e surpreende. A gente cresce e esquece de ver as coisas. Esquece desse saber simples, do óbvio e até objetivo. A doçura e a dureza da ingenuidade.

O que diria aquela criança se soubesse do peso que eu trazia no peito?
Riria, com certeza riria.

“Os problemas dos adultos são tão bobos.”

Dharma

Vinha

O monge

A margem

 

Já não tinha

Os cabelos raspados

Túnica ou templo

 

Aceitava o caminho

e seguia

viagem

Bento Rodriguez

Um pedaço de fim de mundo,

As janelas à altura do chão.

Quem poderia ter vivido ali?

Seres pequenos, menores

Oriundos

da terra

 

                                        “Aquilo era um vestido de festa junina” 

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Queria ser folha

Saí discretamente. Não sabia e nem podia dizer nada.
Preciso de um tempo sozinha, nesse lugar que eu escolhi vir, com pessoas que eu amo e com quem escolhi estar.
Não, não dá pra dizer isso, não seria justo com eles.
Saí calada, sozinha, sem fazer barulho. Desci pela pequena, úmida e acidentada trilha que levava ao riacho, fui pensando no quanto aquela sensação tem sido presente e o quanto eu parecia buscar por ela.
Solidão.
Cheguei na beira do riacho sem muitas dificuldades, ironicamente, mesmo me sentindo presa dentro de mim, o corpo respondia forte e ágil.
Sentei na beira do rio, o rio de Macacos talvez?
Alguém havia me dito que era isso, mas agora pouco importava. Era um rio e eu, precisava da água.
Água.
Sempre fui muito ligada a água, um sentimento de pertencimento maior do que eu já tive com qualquer outra coisa na vida.
Ela me acolhe, sustenta meu peso, cessa as vozes ao redor.
Dizem que nasci na água, sei que nasci sob a lua.
A água me devolve a mim.
Mas essa água, esse rio, meio sujo, meio turvo não eram suficientes pra me envolver. T
udo bem, só precisava estar ali, respirar.
Tentei meditar, nesse lugar que em outros momentos seria mágico mas agora, era só um lugar.
Tentei recuperar o encantamento de estar ali a primeira vez.
Algo me impedia.
A água. voltei minha atenção a ela. Voltei meu olhar para o rio e a correnteza, que carregava as folhas, parecia rápida demais pra mim, lenta, sentada a margem.
Queria ser folha.
O rio corria e com ele os pensamentos me atingiam feito pauladas. Um misto de lembranças, culpa, frustração e dor, saudade.
Queria ter tido mais tempo.
As imagens que vinham à mente, as conversas na loja, seu sorriso, o declamar, a risada estrondosa feito trovão, maldosa.
Todo esse amor selado dentro de mim agora doía.
Doía numa intensidade que eu não sou capaz de expressar. Doía, ardia e fazia a cabeça girar.
Uma borboleta azul cruza o céu, me tira do turbilhão.
Talvez fosse você? Seria no mínimo irônico, considerando sua falta de crença. À observei voar, linda e brilhante pelo caminho estreito do Rio. Percebi que chorava.
A consciência do ato veio com a leveza de quem percebe que dança, ao som de uma música conhecida.
Senti vir de dentro, tomar conta do corpo, toda a água forçando saída, Chorei.
Percebi nesse momento, o que antes, me impedia de meditar.
Sou uma represa, segurando toda água do rio, toda dor, sem deixar escoar.
Agora, eu queria ser rio.
Rio de água doce que levou o barquinho que te pedi, um ano atrás, que mandasse a Iemanjá, em busca de paz.
Mas a paz que eu tanto pedia, a rainha d’água concedeu a você.

Essa experiência devia ter mudado alguma coisa.
Esse chorar largado na beira do rio, devia ter lavado minha alma.
Eu deveria voltar o caminho, entendendo melhor essa relação da vida com a morte, me sentindo melhor. Mas a verdade é que eu voltei me sentindo a mesma merda.
E hoje, mais do que ontem, a saudade doí.

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