Contraste

Gosto de como você se espalha,
De como olha de trás dos óculos 
E desse sorriso sempre meio pronto,
A postos
Pra colorir teu rosto.

Gosto da dificuldade
Em te manter vestido,
Das tuas pintas
Todas
E do formato amendoado 
Da tua boca.
Eu gosto é de te ver
Fraco e molhado
Entre as minhas pernas.

Gosto quando você diz que gosta
E dessa linha fina
Que vai da tua nuca
Até o cóx

Você diz que não entende poesia
Mas é em noites quentes como essa, meu bem
Que nascem os poemas

E foi um bom dia*

Ainda não era dia

Quando abri os olhos

“Acho que te amo”

Você tinha tanta certeza

Eu fui sincera nessa manhã

E em todas as outras

Sei que você também foi

Em quase todas

Bom dia, oque vamos fazer hoje?

Você amanhece a qualquer

hora do dia

E eu perdi a conta

De quantas vezes

Li pra você

Esse poema de bom dia

Você entardecíamos

E nos e mordíamos

De felicidade e desejo

Pra amanhecer de novo, juntos

E você me mostrou

Sua cidade

Seu motivo

Pra ser você

E eu realmente achei

Que podia fazer parte

Boa noite, meu amor

Vai ser sol d’outra vida

E lhe beijar

Um bom dia.

Leão

Você me tem na ponta da

Língua

Na ponta

Dos dedos

E poesia, meu bem

É você me beijando

Dentro de mim

Primeira viagem, segundo encontro.

Eu te senti,

Escorrer, transbordar de mim

Até a ponta dos dedos,

Da língua,

escorrer no canto da boca.

Me pergunta

Por que eu não falo

E eu rezo, pra que você entenda,

Esse idioma de gestos

Que só sabe expressar amor e desejos.

_ Às vezes, meu amor, quando calo

É para fazer poesia.

Ulisses

Saliva escorre feito veneno

Talvez seja sua lua

Câncer

E a minha em escorpião

E eu ainda quero descobrir,

Como ascender seu sol

E onde você guarda sua Vênus.

Tecendo meu desejo

Durante o dia

Matando ele no sono

Na saliva

[Pra você eu sou a Penélope que jurei

Jamais seria]

Dobra

Essas duas horas

Fazem uma diferença enorme

Entre o meu acordar

E o seu dormir

Gostoso é quando o céu fecha aqui

E chove por aí

Encurta a distância

Anos luz

Que no outono passam a um

Foram tecendo nós

Com a calma que só

Saturno tem

De esperar a hora certa

Pra me botar no seu tempo

Aqui

Nesse presente

De deitar no seu peito e dizer

Que te amo

Através desse espaço-tempo

Queda

Ícaro, orgulhoso

Afunda sozinho
No mar
Nem pense,
Não tente me levar junto
Se suas asas são de cera,
Azar
Por que eu,
Eu não me apoio em próteses.
Voo sozinha
Livre
Com asas que nasceram das minhas costas
Nos buracos
Que você abriu
A facada

Geladeira

Não sou Penélope
Não me faça
de espera

Não me ateie fogo
Não me inflame
Se não pretende queimar
Junto

E nunca
Nunca
Fale mais
Do que pode se doar

Quem espera, sempre al[cança]

Cesura

Se tivesse cicatrizes
de todas as violências
que vivi,
Não teria pedaço de pele
que não houvesse sido tocado
Por lâmina, ácido ou fogo

Seria feita
de carne viva

Ao contrário disso,
minhas marcas dormem
por sob a pele
Vez ou outra impelem-se a sair
dar as caras
e abrir feridas

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